Análisis

Artigo questiona fragilidade metodológica de estudos sobre bets e endividamento no Brasil

Terça-feira 19 de Maio 2026 / 12:00

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(Brasília).- Em um artigo de opinião e análise publicado pelo portal Jota, Heloísa Diniz, diretora de Regulatório da ABFS (Associação de Bets e Fantasy Sports), questionou a consistência metodológica de estudos que relacionam o crescimento das apostas online ao aumento do endividamento das famílias brasileiras. Segundo a especialista, parte relevante das análises divulgadas recentemente apresenta falhas estatísticas e ausência de critérios técnicos capazes de sustentar conclusões causais sobre o impacto das bets na inadimplência.

Artigo questiona fragilidade metodológica de estudos sobre bets e endividamento no Brasil

Debate sobre apostas e endividamento ganha novo capítulo

No texto, Diniz reconhece que os possíveis efeitos sociais e econômicos das apostas esportivas representam uma preocupação legítima dentro do atual cenário regulatório brasileiro. No entanto, argumenta que grande parte dos estudos utilizados no debate público carece de “base metodológica suficiente para afirmar causalidade”.

A executiva afirma que há um padrão recorrente em análises que utilizam comparações agregadas ao longo do tempo, atribuindo fenômenos complexos exclusivamente às apostas online, sem considerar fatores macroeconômicos paralelos.

“Sem contrafactual e sem modelagem consistente, o resultado tende a superestimar efeitos e simplificar diagnósticos”, escreveu.

Críticas envolvem dados do Banco Central e estudo da CNC

O artigo menciona o episódio recente envolvendo estimativas baseadas em dados do Banco Central, que apontavam elevado comprometimento de renda das famílias com apostas. Segundo Diniz, as projeções perderam força após questionamentos relacionados à identificação dos fluxos financeiros e à ausência de diferenciação entre tipos de transações.

A diretora da ABFS também direciona críticas ao estudo elaborado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), que associa apostas ao aumento da inadimplência no país.

De acordo com a análise, embora o trabalho seja apresentado como um modelo de “Diferenças em Diferenças”, não existiria um grupo de controle efetivo. Na prática, o estudo compararia apenas o Brasil antes e depois de 2023, período marcado por múltiplas transformações econômicas.

Variáveis econômicas não teriam sido isoladas

Entre os fatores que, segundo o artigo, não foram adequadamente considerados nas regressões estatísticas estão a expansão do crédito rotativo, o aumento dos juros do cartão de crédito, o crescimento do spread bancário e o avanço da bancarização digital.

Diniz argumenta que esses elementos afetam diretamente os índices de inadimplência e deveriam ser isolados para permitir uma análise robusta sobre o impacto específico das apostas online.

“O próprio estudo menciona variáveis como desocupação, crédito e inflação, mas elas não entram nas regressões”, destacou.

Perfil identificado diverge dos dados oficiais do setor

Outro ponto levantado pela executiva envolve o perfil demográfico apontado pelo estudo da CNC. Segundo ela, os resultados indicariam maior impacto entre pessoas mais escolarizadas e acima de 35 anos, cenário considerado incompatível com os dados oficiais do mercado regulado.

A análise cita informações da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), segundo as quais mais de 74% dos usuários de plataformas de apostas possuem menos de 40 anos, com predominância masculina.

Para Diniz, essa divergência sugere “problema de especificação, não descoberta empírica”.

Transparência e qualidade de dados entram no centro do debate regulatório

O artigo também questiona os números utilizados sobre movimentação financeira do setor. Segundo a autora, o estudo da CNC teria afirmado que os gastos mensais com apostas superaram R$ 30 bilhões em março de 2026, valor considerado incompatível com estimativas oficiais da SPA, que apontaram GGR anual de aproximadamente R$ 37 bilhões em 2025.

A ausência de detalhamento sobre as séries estatísticas utilizadas impediria, segundo a diretora da ABFS, a replicação independente dos resultados.

“Sem transparência sobre os dados, não há como verificar a consistência das estimativas”, afirmou.

Ao concluir o artigo, Heloísa Diniz ressalta que a discussão sobre jogo responsável e impactos sociais das bets exige investigação séria e evidências sólidas, especialmente em um ambiente regulatório ainda em consolidação no Brasil.

“Em um ambiente regulatório em construção, a qualidade da evidência não é detalhe técnico. É condição para que decisões tenham fundamento e produzam efeito real”, concluiu.

 

Categoría:Análisis

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País: Brasil

Región: Sudamérica

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