Dados da ABRAS mostram que consumo crescia antes do veto às bets
Sexta-feira 06 de Novembro 2026 / 12:00
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(Brasília).- O crescimento das vendas no varejo alimentar brasileiro já estava em andamento antes da proibição das plataformas de apostas online determinada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), analisados em publicação do Poder360, mostram que o setor registrava expansão semanas antes da Medida Provisória nº 1.394/2026, contrariando a interpretação de que o aumento das compras de alimentos seria consequência direta da suspensão das bets regulamentadas. O levantamento coloca em questão a relação de causa e efeito apresentada após a medida e reforça a necessidade de considerar outros fatores econômicos na avaliação de seus impactos.
Consumo nos supermercados já crescia antes da proibição das bets
O principal dado apresentado na análise é o crescimento nominal de 7,9% nas vendas do varejo alimentar entre 14 e 20 de setembro de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. O resultado foi registrado antes da publicação da medida provisória, em 25 de setembro, e da posterior retirada das plataformas regulamentadas do mercado, em 6 de outubro.
A informação é particularmente relevante porque, nos dias seguintes à suspensão das operações, a ABRAS divulgou resultados positivos para o setor supermercadista, associando parte desse desempenho à interrupção das atividades das plataformas de apostas online.
Segundo os indicadores da entidade, as vendas cresceram 6,5% entre 5 e 11 de outubro e 6,3% entre 12 e 18 de outubro, na comparação anual. Esses resultados foram utilizados para sustentar a hipótese de que os recursos anteriormente destinados às apostas estariam sendo direcionados ao consumo de alimentos.
Entretanto, os números anteriores à medida provisória demonstram que a trajetória de crescimento já estava estabelecida. Portanto, os resultados posteriores à proibição não podem ser atribuídos automaticamente à retirada das bets do mercado.
Indicadores anteriores também apontavam expansão do consumo
A evolução do consumo das famílias brasileiras já aparecia nos levantamentos anteriores da ABRAS. Em agosto de 2026, o consumo nos lares registrou crescimento real de 2,69% em relação ao mesmo mês de 2025 e alta acumulada de 2,71% no ano, considerando os valores descontados da inflação.
Naquele momento, a própria associação relacionava o desempenho do varejo a fatores como a melhora do emprego e da renda e a redução dos preços dos alimentos.
Essas variáveis são fundamentais para compreender o comportamento de compra das famílias e precisam ser consideradas em qualquer avaliação sobre os efeitos econômicos da proibição das apostas.
Crescimento das vendas não comprova impacto da medida
Outro aspecto importante é a diferença entre crescimento nominal e crescimento real do consumo. O avanço de 7,9% registrado em setembro corresponde ao valor das vendas, sem descontar a inflação, e não necessariamente representa um aumento equivalente na quantidade de produtos adquiridos.
A análise também levanta questionamentos sobre a metodologia utilizada para estabelecer uma relação direta entre a suspensão das bets e o desempenho dos supermercados.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) argumenta que a coincidência temporal entre a retirada das plataformas do mercado e a expansão das vendas não é suficiente para comprovar uma relação de causalidade.
Para identificar um eventual efeito da proibição sobre o orçamento das famílias, seria necessário considerar outros indicadores, como renda, emprego, inflação e preços dos alimentos, além de comparar períodos anteriores e posteriores à medida.
O mesmo cuidado deve ser aplicado à interpretação das transferências via Pix. A redução dessas movimentações, isoladamente, não demonstra que os recursos anteriormente destinados às apostas tenham sido transferidos para a compra de alimentos ou outros produtos essenciais.
Mercado ilegal também precisa entrar na análise
A suspensão das operadoras regulamentadas acrescenta outra variável ao debate: o possível deslocamento dos apostadores para plataformas clandestinas.
A retirada das empresas autorizadas não significa necessariamente que os consumidores abandonaram as apostas. Parte da demanda pode continuar sendo atendida por operadores ilegais, que não estão submetidos aos mesmos mecanismos de fiscalização, proteção ao consumidor e jogo responsável exigidos do mercado regulamentado.
Esse cenário dificulta ainda mais a mensuração dos fluxos financeiros relacionados às apostas e seus efeitos sobre o orçamento das famílias brasileiras.
Além disso, uma avaliação econômica abrangente precisa considerar a contribuição do mercado legal para a economia, incluindo tributação, geração de empregos, contratação de fornecedores, investimentos e destinações sociais.
IBJR questiona estimativas sobre os efeitos das apostas no consumo
Entre os números que também geraram questionamentos estão as estimativas de R$ 62,5 bilhões supostamente destinados pelas famílias brasileiras às bets e de R$ 143 bilhões em vendas que o comércio teria deixado de realizar em razão das apostas.
Segundo o IBJR, essas projeções precisam ser acompanhadas de esclarecimentos sobre suas metodologias, períodos de referência e universos de análise.
Outro indicador importante para contextualizar o debate é o Gross Gaming Revenue (GGR) do mercado regulamentado brasileiro, que alcançou aproximadamente R$ 37 bilhões em 2025, segundo dados do Ministério da Fazenda. O GGR representa a receita bruta de jogos, e não o volume total de depósitos ou transferências financeiras realizadas pelos apostadores.
A distinção entre movimentação financeira, valores apostados e receita efetiva do setor é essencial para evitar comparações equivocadas na discussão sobre o impacto econômico das bets.
Os dados da ABRAS acrescentam, assim, um elemento importante ao debate sobre a proibição das apostas online no Brasil: o crescimento do consumo alimentar já era observado antes da suspensão das plataformas regulamentadas. Embora não descartem a possibilidade de efeitos posteriores da medida, os indicadores demonstram que não há fundamento para atribuir automaticamente o desempenho dos supermercados à proibição das bets. Uma avaliação consistente exige considerar a evolução histórica do consumo e os diferentes fatores que influenciam a economia das famílias.
Categoría:Análisis
Tags: Sin tags
País: Brasil
Región: Sudamérica
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