Fim das bets já provoca mais de 3.500 demissões no Brasil
Quinta-feira 08 de Outubro 2026 / 12:00
⏱ 4 min de lectura
(Brasília).- Mais de 3.500 trabalhadores já foram demitidos por empresas de apostas no Brasil desde a edição da Medida Provisória 1.394/2026, segundo levantamento parcial da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). O número equivale a 23% da força de trabalho do setor, enquanto outros 4.167 funcionários estão em férias coletivas, em meio à paralisação das operações autorizadas determinada pela MP.
Setor de apostas enfrenta onda de demissões
O levantamento da ANJL considera demissões e encerramentos de contratos realizados desde 25 de setembro, data em que o governo anunciou a medida provisória que proibiu a operação das bets no país. A associação ressalta que os dados ainda são parciais e foram fornecidos pelas próprias empresas de apostas.
A entidade estima que os desligamentos possam alcançar 5.600 trabalhadores nos próximos 90 dias, o equivalente a 37% dos empregados do setor. Parte dos profissionais atualmente em férias coletivas também poderá ser desligada caso a suspensão das atividades seja mantida.
O impacto, segundo a ANJL, ultrapassa as operadoras. Empresas de meios de pagamento, marketing, compliance, agências, afiliados e veículos especializados também integram o ecossistema criado em torno do mercado regulado de apostas.
Possibilidade de 15 mil demissões diretas
O cenário pode se tornar ainda mais severo. Bernardo Freire, consultor jurídico da ANJL, afirmou ao Poder360 que o número de demissões diretas poderá chegar a 15 mil em pouco tempo.
Segundo Freire, as empresas autorizadas estão sem operar desde a publicação da MP e, consequentemente, sem faturamento. A falta de receita dificulta a manutenção do capital de giro necessário para preservar as operações e os postos de trabalho.
O consultor também apontou possíveis impactos sobre empregos indiretos. De acordo com ele, R$ 2,4 bilhões em investimentos publicitários previstos para 2027 já foram retirados das projeções das agências, afetando potencialmente plataformas digitais, emissoras de televisão e outros veículos.
Incerteza regulatória amplia os impactos
Para a ANJL, a ausência de previsibilidade sobre o futuro das apostas regulamentadas é um dos principais fatores por trás dos cortes.
A associação aguarda a análise, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), das ações que questionam a MP 1.394/2026. O ministro Luiz Fux é o relator dos processos relacionados à medida.
A discussão sobre os empregos ocorre, portanto, em paralelo à disputa jurídica sobre a continuidade do mercado regulado de apostas no Brasil.
Proibição imediata gera críticas no setor
Emanuel Macedo, cofundador e CEO global da Sport Integrity Global Alliance (SIGA), avaliou que a forma como a proibição foi implementada surpreendeu empresas e trabalhadores.
Segundo Macedo, as operadoras haviam recebido autorização para atuar no mercado brasileiro, pago outorgas e realizado investimentos em tecnologia, compliance e proteção ao consumidor antes da mudança regulatória.
O executivo reconheceu problemas associados às apostas, incluindo dependência, endividamento e publicidade excessiva, mas defendeu que uma fiscalização mais rigorosa seria diferente da eliminação imediata da atividade.
Risco de migração para plataformas ilegais
Outro ponto levantado por Macedo é o possível crescimento do mercado não autorizado. Na avaliação do executivo, o encerramento das empresas licenciadas não significa necessariamente o fim das apostas no Brasil.
Parte dos usuários poderia migrar para plataformas ilegais, reduzindo a capacidade das autoridades de monitorar fluxos financeiros e identificar operações suspeitas, incluindo lavagem de dinheiro e possíveis casos de manipulação de competições esportivas.
Para Macedo, os efeitos sobre o emprego representam apenas uma parte das consequências da medida, que, em sua avaliação, deveria ser acompanhada por uma análise de impacto social e econômico, consulta aos setores envolvidos e um período de transição.
Sindibets-SP busca preservar empregos
O Sindicato das Empresas Operadoras de Apostas Esportivas e Jogos Online do Estado de São Paulo (Sindibets-SP) informou que está negociando com o sindicato dos trabalhadores alternativas para preservar empregos e reduzir os efeitos da MP sobre empresas e profissionais.
A entidade afirmou que o atual cenário gera insegurança para trabalhadores, famílias e empresas e defendeu medidas transitórias que ofereçam maior previsibilidade ao setor.
Caso novos desligamentos sejam inevitáveis, o sindicato declarou que buscará garantir que sejam realizados de maneira responsável e transparente, respeitando a legislação e os acordos coletivos.
Impacto econômico das apostas divide avaliações
A discussão sobre os efeitos da proibição também envolve a contribuição econômica das apostas. O governo e alguns economistas argumentam que, apesar das perdas de empregos, o impacto econômico e social das bets seria negativo porque os gastos dos consumidores com apostas deixam de circular em outros segmentos da economia.
Segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros citado pelo Poder360, as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões da renda das famílias em 2025, equivalente a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. O relatório também apontou redução no ritmo das transações após a restrição de apostas para beneficiários do Bolsa Família, implementada em outubro de 2025.
Enquanto o STF analisa as ações contra a MP e o setor acompanha seus próximos passos jurídicos, o mercado regulado de apostas brasileiro já enfrenta efeitos concretos sobre emprego, investimentos e empresas que integram sua cadeia de negócios.
Categoría:Otros
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País: Brasil
Región: Sudamérica
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